O CR POP TT atende pelo SUS cerca de 1500 pacientes por mês e faz parte da rede de tratamento a saúde de pessoas buscam mudar de gênero
Por Enzo Fiori
Desde 2008, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece o processo de transição de gênero. Apesar do tratamento especializado existir há 18 anos, muitas pessoas ainda não sabem como funciona o tratamento e por isso surgem dúvidas e mentiras sobre o assunto.
A transição ocorre quando a pessoa busca mudar do gênero que recebeu ao nascer. O processo é complexo e varia de pessoa para pessoa, algumas decidem por fazer a reposição hormonal e procedimentos cirúrgicos, enquanto outras, fazem apenas a mudança social.
O estudante de psicologia Diogo Oliveira se entende como uma pessoa não binária trans-masculina, e faz a transição de gênero pelo SUS na cidade de Santo André desde 2024 e ressalta a importância da gratuidade:
‘Em questão financeira é bom porque o hormônio é caríssimo, uma ampola (de hormônio) é coisa de 200 e 300 reais e eu consigo isso de graça no SUS.’
Ele ainda afirma que se sente mais confortável com seu corpo, mas reitera que a transição vai além do físico, precisa ser mental.
“É uma mudança muito grande em todos os aspectos da sua vida, então se você não tiver com a cabeça em ordem, eu acho que mesmo sendo algo que vai afetar positivamente a sua vida é bem complicado.”
Segundo um estudo realizado pela Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) em 2021, estima-se que existam aproximadamente 3 milhões de pessoas trans no Brasil, ou seja, 2% da população Brasileira se identifica como uma pessoa trans.
No Centro de Referência de Saúde Integral para a População de Travestis e Transexuais (CR POP TT) - Janaína Lima, cerca de 1500 atendimentos ocorrem por mês, e mais de 100 pessoas fazem o cadastro mensalmente na unidade.
O equipamento faz parte de uma rede de unidades especializadas da Secretaria Municipal de Saúde da prefeitura de São Paulo, a Rede SAMPA Trans, com atendimento voltado para pessoas LGBT.
O Nutricionista de Pessoas Trans, o Dr. João Marcelo, que atende na unidade do Bom Retiro, região central da capital, explica que todo paciente antes de começar o tratamento passa por um acolhimento com uma equipe multidisciplinar.
“Ela tem que ter inicialmente uma primeira passagem pelo médico. Tanto ginecologista, urologista, endócrino, hormonizam aqui dentro. Existe essa questão das comorbidades, se vai para consulta de farmácia, se vai para nutrição e depois são feitos exames de sangue completos.”
Adolescentes são proibidos de usar bloqueadores de hormônios
A transição de gênero não é tão rápida quanto algumas pessoas imaginam. O Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou uma resolução em abril de 2025 exigindo o acompanhamento do paciente por no mínimo um ano com uma equipe médica antes de ser receitado qualquer bloqueador de hormônios ou terapia hormonal. Mas se o paciente já estava realizando a transição, ele segue com o acompanhamento médico
Ainda na mesma norma, vale destacar que crianças e adolescentes não podem fazer o uso de bloqueadores hormonais ou qualquer procedimento cirúrgico antes dos 21 anos de idade.
Apesar da impossibilidade de realizarem cirurgias ou utilizarem hormônios, os pacientes até 18 anos podem utilizar a Rede Sampa Trans e o CR POP TT, para passar por acompanhamento médico e psicológico. A Unidade conta com uma equipe de: Psiquiatras, Nutricionistas, Enfermeiros, Psicólogos, Ginecologistas, Farmacêuticos, Urologistas, Fonoaudiólogos e Assistentes Sociais.
O Nutricionista ainda ressalta que os problemas da hormonização sem acompanhamento médico podem levar a problemas mais sérios de saúde.
“É um alerta que a gente sempre dá. Estradiol é o hormônio feminino e o Etinilestradiol, por exemplo, é o que tem em alguns anticoncepcionais, que foi alvo de estudos que associam a um desenvolvimento possível de câncer. Então na automedicação é muito comum esse erro. Para bloquear uma testosterona, você tem que fazer um exame e saber em que nível está a sua testosterona e qual é a quantidade desejada para calcular o tempo e a dosagem do medicamento.”
Para o Dr. João, o Centro de Referência é uma conquista da população trans que é invisibilizada e faz um convite: “O CR-POP existir é o resultado de muita luta, e muito investimento. Muita gente morreu para que a gente exista e ofereça uma hormonização consciente, acompanhada por médicos, por outros profissionais de saúde”.
Para mais informações acesse o site da prefeitura que disponibiliza uma cartilha explicando mais sobre o local. Caso preferir dirija-se a Rua Jaraguá, nº 866 no bairro do Bom Retiro em São Paulo
A Central de Notícias da Rádio Heliópolis é uma iniciativa do Projeto “Resistencia, cultura e economia no coração do Brasil!”. Este projeto foi realizado com o apoio da 9ª Edição do Programa Municipal de Fomento ao Serviço de Radiodifusão Comunitária Para a Cidade de São Paulo.
